O que levaria um gótico para aquele lugar tão peculiar?

Quem acompanha a história

domingo, 22 de janeiro de 2012

CAPÍTULO 6 - Parte III


 Inevitavelmente, todos, que não eram poucos, que estavam perto, caíram na risada, ao passo em que Richard e Lisa estavam prestes a partir para cima do sujeito de tanto ódio. Richard já fechava o punho em direção ao rapaz quando Kevin segurou-o com força, olhou em volta com um meio sorriso de desdém e disse com a maior naturalidade:
— Pois é, Richard… - ele falava e fixava o elemento com ironia – Você também não nos avisou.
As risadas tornaram-se gargalhadas, só que agora tomando outro rumo. A mais alta foi de Richard, que se destacou na multidão. Ao tempo em que o sujeito corroía-se de raiva por ter virado a piada do evento, Kevin fixava-o com maior intensidade e uma cara hilariante. Tocando gentilmente seu ombro e mantendo o tom de voz sereno e cínico, acrescentou:
— Poderia ter dormido sem essa, companheiro.
E simulando uma cara de lamento, seguiu em frente, abandonando o coitado naquele circo, onde o palhaço era ele e ninguém mais.
Richard comemorou sua atitude batendo palmas.
— Bem feito o que você fez. – falou – Esse sujeitinho é um nojento, faz tempo que tá procurando levar uma sova de mim e olha que não vai demorar! Acha que a gente o convidou para vir aqui? Que nada! Veio de penetra! E vai pagar caro por isso! 
— Esqueça, Richard. – Kevin procurou acalmá-lo pousando a mão em suas costas – Não vale a pena sujar suas mãos com este sujeito. E hoje é o aniversário de sua mãe, um dia importante para você. Não vai deixar que um palhaço deste lhe estrague a festa, vai? Por favor! 
— É… - pensou melhor – Não vou deixar não. – reanimou-se – Não vou deixar mesmo! Vamos em frente! – incentivou.
A casa situava-se a uma certa distância do portão de madeira por onde entraram. Eles tiveram que atravessar um caminho de gramado limpo e muito bonito, de uns cem metros para chegar até ela. Não era o que dava para chamar de casa, o termo mais apropriado seria palácio. Era uma bela de uma mansão campestre.
Devido ao acúmulo de pessoas dançando em frente, foram obrigados a entrar pela lateral tomando o caminho de uma sala para logo chegarem à cozinha. A peça era enorme e tinha tudo o que era de mais moderno, assemelhava-se muito mais às cozinhas das grandes cidades do que do campo.
Três mulheres encontravam-se lá, dividindo o trabalho. Uma garota que deveria ter no máximo catorze anos e organizava alguns copos, separando-os por tamanho, uma senhora bem idosa ao seu lado, preparando algo que parecia uma salada, que Kevin pensou tratar-se da aniversariante por ser tão morena quanto Richard e, um pouco mais afastada, uma mulher que estava preparando uns aperitivos em cima de outra mesa. 
Kevin surpreendeu-se quando os dois o guiaram até ela. Jamais imaginaria que fosse esta a mãe de Richard. Era uma senhora de aproximadamente quarenta e poucos anos, muito bem conservada, o corpo esguio, cabelos loiros bem curtos e olhos azuis. Não tinha nada a ver fisicamente com Richard, porém, a simpatia e simplicidade eram as mesmas.
Ao se aproximarem, como não poderia ser diferente, Kevin foi o que mais pareceu chamar a sua atenção. Lisa a cumprimentou pelo seu aniversário, entregando-lhe um pacote de presente, Richard deu um beijo e um abraço, a repreendeu por estar trabalhando naquele dia dizendo que era para estar de folga e ser tratada como uma rainha, provocando-lhe risos e só depois que se lembrou de apresentar Kevin. Apresentou-o como o seu “novo amigo da cidade grande”. Kevin apertou sua mão e a cumprimentou pelo seu aniversário. 
Após agradecer ao cumprimento, comentou impressionada:
— Nossa! Como ele é diferente!
Já era para estar acostumado, aliás, já estava acostumado com esse tipo de comentário, mas não sabia por que desta vez tinha ficado sem jeito.
— Parece uma moça.
— Mãe! – Richard repreendeu com zanga e vergonha.
— Ora, meu filho, o que tem de mais no que eu falei? – questionou sem notar a “gravidade” da coisa.
— Você o comparou com uma mulher! – retrucou. 
Lisa ria.
— E é tão ruim assim ser comparado com uma mulher? – quis muito saber, olhando para o filho séria.
— Para um homem…
—… Não! Não há nada de mais em ser comparado com uma mulher. – cortou Kevin com um pouco de aflição antes que ele prosseguisse e dissesse alguma coisa ofensiva em um lugar onde só havia mulheres.
— Não estava lhe comparando exatamente com uma mulher… - tentou se explicar.
—… mas não tem problema se me comparar. Todos nós viemos do homem e da mulher, neste caso, acredito que não dá para evitar, somos a mistura de ambos. Temos um lado masculino e outro feminino. Somos todos de certa forma um pouco andróginos. Só que alguns mais, outros menos.
Todas as mulheres o olhavam admiradas, inclusive Lisa e as que não estavam dentro da conversa. 
— Aff!
Richard que pareceu não ter gostado muito da teoria, mesmo não conhecendo o significado da palavra andrógino.
— Sabe que eu nunca tinha pensado nisso? – intrometeu-se sem se dar conta a outra senhora que estava junto a garota.
— Feminino. – disse a mãe de Richard – Esta é a palavra que estava querendo usar. – sorriu com um certo alívio – Não é que você pareça uma moça, você tem uns traços mais femininos que outros rapazes que já conheci. Seu rosto é delicado, não é, meninas?
Todas concordaram fazendo Kevin corar, principalmente a moça. Sua beleza já era de intimidar, ainda por cima ela não lhe desgrudava os olhos…
Lisa também lhe fixava, só que de um modo curioso, como quem está concluindo alguma coisa, o que na realidade estava. Comparando as linhas do rosto de Richard com as dele, que estavam lado a lado, ao contrário de Richard, ela via em Kevin uma beleza que considerava ter uma suavidade impressionante, até mesmo uma aparência leve de fragilidade. Não somente no físico quanto no comportamento, o qual vinha observando desde que começaram a compartilhar o mesmo lugar.
De repente distraiu-se tanto que nem ligava mais para o que estavam falando à sua volta. Tudo o que via era o rosto de Kevin e acabou tendo que, de alguma maneira, partilhar do mesmo sentimento da mãe de Richard. Ele era totalmente o oposto de todos os homens que conhecera. Achava seu olhar expressivo e dócil, e seu sorriso cativante. “Retornou a realidade” somente quando Richard tocou em seu braço. Levou alguns segundos para entender que estava sendo tirada para dançar.
Não hesitou, deixou-se conduzir para frente da casa e se levar pelo ritmo country da festa. Kevin acabou ficando na cozinha mesmo, sentou-se à mesa e dispôs-se a olhar Rebecca (assim se chamava a mãe de Richard) em seus preparos de aperitivos que ela ofereceu várias vezes e ele recusou. Até que chegou uma hora em que achou chato ficar negando e acabou cedendo a insistência e aceitando alguns petiscos.
Ela perguntou por que preferia ficar em companhia das “velhas” ao invés de sair e aproveitar a festa. De imediato foi repreendida, ele a fez recordar que não havia nenhuma velha ali. 
— Oh, muito obrigada, alguém percebeu que eu existo e quem sou! – a garota agradeceu, brincando e ao mesmo tempo se mostrando meio irritada. 
As demais senhoras acabaram por se entregar, agradecendo também.
A verdade é que Kevin não gostava muito de festas familiares, se dependesse de sua vontade estaria em casa dormindo. Claro que não expôs seus pensamentos, a desculpa que usou é de que lá era agradável e o fazia se sentir mais a vontade, o que por um lado, não era mentira. A cozinha tinha se tornado um refúgio dos olhares aborrecedores dos curiosos e estava decidido que ficaria ali dentro até que a festa findasse. Inclusive porque a companhia delas não era nada ruim. Rebecca mostrava-se uma pessoa muito amável, assim como seu filho..
Durante um bom tempo conversaram sobre uma porção de coisas, ela falava bastante e também perguntava muito. Kevin deparou-se sem querer com “outra Lisa” em seu caminho, querendo saber de tudo sobre o mundo gótico. Isto porque acabara de ouvir esta palavra não fazia nem meia hora. Ele tinha que ter dito, era o único jeito de fazê-la compreender o motivo de estar com “o rosto pintado”. 
Num piscar de olhos chegou o momento de cantar os “Parabéns”. Todos correram para os fundos da mansão, onde havia um enorme jardim coberto de flores e onde tinham posto uma mesa decorada bem comprida, coberta por uma toalha branca, repleta de doces e salgados. O maior destaque entre eles era o bolo de Lisa.
Esse foi o momento em que Kevin ficou mais exposto e à mercê dos cochichos maldosos. Procurou ignorar ao máximo, porém, não dava para não se sentir ofendido. Estava se segurando para não xingar ou sair correndo. O cowboy com que se deparara na entrada o olhava ameaçador, como quem estava preparado para dar-lhe uma surra.
Ridículo. Era o único termo que lhe vinha à mente.
Após o ritual do “Parabéns a você”, Kevin tratou de escapulir daquele monte de gente. Correu para frente da casa e escorou-se de lado na parede lateral, de braços cruzados, nem esperou pelo bolo. Quando foi ver, todos estavam de novo dançando. Se saísse, ia dar muito na cara que estava se importando com o que diziam, portanto, continuou onde estava, sob vigia do olhar do cowboy que dividia a atenção entre o rosto da namorada e o rosto dele. Sua indiferença para com o sujeito foi total. Só tinha olhos para as pessoas que dançavam alegremente.
— Quer dançar? – escutou uma voz chegando por trás.
Ao virar, deparou-se com uma garota de longos cabelos negros, pele clara e olhos verdes. Sem dúvidas, era a mesma garota que estava há pouco tempo atrás na cozinha. Ela mostrava-se sorridente.
— Lamento. – desculpou-se – Mas música country não é muito o meu estilo.
— Nem o meu. – confessou – Mas fazer o quê se é a única coisa que toca aqui quando se está com vontade de dançar? – cochichou indignada ao seu ouvido. – Vamos dançar um pouquinho?
— Sinto muito. 
— Ah… - desceu os ombros, lamentando.
— Se concordar em dançar, garanto, lhe farei passar vergonha. – riram.
— Bom, se é assim… fica para uma próxima! – riu – Você não pegou bolo? – viu que suas mãos estavam vazias. Ele fez que não. – Então deixa que eu pego um pedaço para você.
— Não! – tentou impedir.
Quando foi ver já estava há metros de distância.
— Não precisa. – disse consigo mesmo, desgostoso.
— Aqui está. – não demorou um minuto e ela estava lhe estendendo um prato com uma grande fatia de bolo.
— Não precisava ter se incomodado. – aceitou, mas nem tocou no bolo. Ficou apenas segurando.
Muito tempo ela tentou puxar conversa, mas ele não deu muita chance. Sabia o que estava pretendendo e não queria. Era uma menor. Não queria de jeito nenhum. Entretanto, também não achava muito conveniente cortá-la bruscamente, por isso foi levando, até que percebesse. Cedo ou tarde, perceberia.
— Está namorando a Lisa? – perguntou ao notar que os dançarinos que mais observava eram Richard e Lisa.
Sua indiscrição foi causa de grande espanto. Kevin retirou vagarosamente os olhos da “pista de dança” para pousar em seu rosto e deparou-se com uma completa despreocupação em ser prudente, que o deixou indignado e abismado. Quanto mais refletia e procurava compreender, mais se indignava e abismava.
A pergunta que aquela garota estava fazendo não fazia o menor sentido para ele!
— Que tipo de pergunta é esta? – questionou sem procurar ocultar a ponta de raiva que o atacava.
Dotada de muita naturalidade, a resposta veio curta e direta:
— Você não tira os olhos deles. Parece até que está com ciúmes. – acrescentou pondo as mãos na cintura, olhando com malícia para o casal que dançava.
Um sorriso nervoso escapou dos lábios dele.
— Que absurdo! – falou.
— Absurdo por quê? – cruzou os braços – Ela é bonita… E você também. – atiçou aproximando a boca do seu ouvido outra vez.
Foi o momento de ele ter a resposta rápida:
— Beleza não é o único que conta.
— Não está namorando ela então? 
Ele se limitou a negar com um gesto quase imperceptível de cabeça, provocando nela uma respiração de alívio.
— Ainda bem. – afirmou – Sabe há quanto tempo Richard vem tentando conquistá-la? – não esperou pela resposta – Anos! Desde a época em que ela chegou aqui.
— E ela nunca quis nada com ele? – não sabia nem o motivo de estar fazendo tal pergunta, afinal, o que ele tinha com isso?
Ensaiando um breve sorriso, contou:
— Nunca deu para saber ao certo. Ele nunca se declarou. Talvez por ela nunca ter dado uma chance também… Quem pode saber?
Sua expressão era de lamento. Estava mais do que claro que vinha acompanhando e torcendo por esse romance desde o início.
— É... – comentou Kevin pensativo. – Quem pode saber?
— Espero que não tenha vindo para estragar tudo. – seu olhar era de acusação.
Acusação a qual Kevin se achou no direito de defender-se:
— Não pretendo estragar coisa alguma.
As mostras que ela dava em seu rosto eram de pura desconfiança.
— Está morando na casa dela. – falou como se isto fosse um crime.
— Morar na mesma casa não significa romance! – sua raiva deixou de ser apenas uma ponta para tornar-se completa. – Nunca tive intenção alguma com Lisa! E nunca tivemos nada.
Por hora, ele sentia-se ridículo ao sentir aquela raiva e, principalmente, a estar dando satisfações a uma estranha. 
— Não estou dizendo que tem. Apenas observo que sua atenção está totalmente voltada para os dois. 
— São as únicas pessoas que conheço aqui na festa. Normal que olhe mais para eles do que para os demais aqui presentes.
— É. – ergueu as sobrancelhas pouco convencida.
Quando ia dizer mais alguma coisa, Rebecca surgiu por trás deles, um pouco afastada, chamando-a:
— Anda, Diana! – demonstrava pressa e soava repreensiva – Preciso de sua ajuda lá na cozinha.
— O que quer que faça? – perguntou desgostosa por ter sido interrompida.
— O que prometeu que ia fazer. Me ajudar!.
Vendo que o desânimo não permitia que a garota se movesse, Rebecca energicamente foi até ela e a arrastou pelo braço. Mesmo assim, a garota ainda teve a chance de lançar um olhar de ameaça para Kevin, parecidíssimo com o olhar do cowboy. Ele o recebeu com pouco interesse.
Rebecca apertou o passo, pois notou o que ocorria.
Ao vê-las adentrarem a cozinha, não muito entusiástico, ele voltou a pôr os olhos onde estavam antes.
Não haveria palavra que o caracteriza-se melhor do que entediado. Enquanto Richard e Lisa divertiam-se muito, ele estava pedindo para morrer. Sentia-se um idiota encostado ali, com aquele prato de bolo nas mãos. Bolo que nem havia tocado. Após os petiscos, não sentia o menor apetite.
Nada que pudesse considerar interessante ocorria naquela festa. Não havia ninguém para conversar, as músicas que tocavam achava horríveis e irritantes, ou seja, não conseguia encontrar nada que desse para tirar algum proveito. A não ser a comida…
Apesar da mínima vontade que tinha de comer, chegou à conclusão de que era só o que lhe restava para desfrutar ao menos um pouco daquela situação. Ao contrário das pessoas e das músicas, a comida parecia ótima. Começando pelo bolo que segurava… uma fatia enorme de bolo de chocolate, recheada com mousse do mesmo sabor e amêndoas, coberta com uma camada grossa de chantilly com morangos. Irresistível aos olhos de qualquer um.
Experimentou o primeiro pedaço da fatia. Nada mal. Em seguida experimentou o segundo, o terceiro, e assim sucessivamente. Quando viu já estava com o prato vazio. Pensou em repetir, mas achou melhor se controlar. Aquele enjôo que sentira no caminho estava ameaçando querer voltar. 
Deu uma última olhada em Lisa e Richard, incansáveis e retornou ao ponto de partida, ou seja, à companhia das senhoras na cozinha.
Apenas Rebecca encontrava-se lá agora, sentada à mesa beliscando alguns doces e principalmente descansando de toda aquela agitação.
— Me acompanha? – perguntou ao avistá-lo na porta.
— Obrigado. – agradeceu entrando e sentindo o estômago piorar – Já comi o suficiente. – sentou ao seu lado, respirando fundo.
— Provou o bolo? – ele confirmou – Delicioso, não? Lisa leva jeito para a coisa, pena que não sabe aproveitar. Eu com esse talento já teria feito uma fortuna!
Ele achou graça.
— Meu filho é apaixonado por ela. – contou.
“Pronto!”, pensou. Já tinha que se preparar para mais uma ladainha de julgamentos e diretas insinuações. 
Enganou-se. Ela mesma se arrependeu do que tinha dito e tratou urgentemente em mudar o assunto.
Conversaram bastante. Ela contava a história de seu marido, o pai de Richard, que havia falecido quando ele tinha apenas dez anos. Kevin não acreditou quando ela disse que Richard tinha apenas vinte anos. Aparentava mais. Notando seu espanto evidente, foi então que ela explicou que o filho amadureceu cedo, que a morte do pai tinha sido uma experiência muito traumática. Tão traumática que chegou até mesmo a perder as esperanças. Até que num belo dia Lisa entrou em cena e o restante da história tornou-se óbvia demais.
Ao que indicava, a amizade de Lisa e a perspectiva provavelmente ilusória de poder tê-la, salvou sua vida. Algo aparentemente piegas, mas se visto com sensibilidade, um bocado profundo.
Aos poucos, a voz de Rebecca foi se afastando e tornando-se somente palavras incompreensíveis. Muitas palavras, porque ela falava muito. Logo, tudo ao seu redor começou a girar, o seu corpo a amolecer e o semblante da senhora, que anteriormente parecia normal, agora mostrava-se preocupado. Não podia enxergá-la direito, sua visão estava meio nebulosa, mas podia reparar que estava muito mais perto do seu rosto e perguntava-lhe alguma coisa, logicamente se estava se sentindo bem. 
E ele só pôde lhe dizer (se bem que mal podia falar):
— Onde fica o banheiro?
Não soube como, mas conseguiu ouvi-la dizer que era a penúltima porta à esquerda do corredor e chegar até lá. Entrou com tudo, sem ao menos conferir se havia alguém dentro ou não (sorte que não havia) e nem percebeu o quão luxuoso era o compartimento, amplo e repleto de espelhos. O único que percebeu foi o vaso sanitário, quase tarde demais.
Carregado de muito afobamento, lançou-se ajoelhando ao chão, levantando com urgência a tampa do mesmo e desatando a vomitar.
Vomitou tanto, tanto, que pensou que não ia mais parar. Era assustador, não lembrava de ter vomitado tanto alguma vez em sua vida. Quando finalmente não lhe restava mais nada no estômago, ou pelo menos aparentemente não, levantou a cabeça e com dificuldade e fraqueza, colocou-se de pé, um pouco aliviado.
Voltando para a cozinha, o primeiro com que deu cara foi com a extrema preocupação da senhora.
— Como você está?
— Estou bem.
Realmente sentia-se melhor. Mesmo com a tontura e a fraqueza, sentia-se melhor.
— Senta aqui. – puxou uma cadeira fazendo-o sentar – Menino, você está pálido como um vampiro! – exclamou um pouco assustada. - Tome um copo d’água.
Ele recusou grato, com medo de passar mal de novo, de nem água parar em seu estômago. Disse apenas que necessitava de alguns segundos para se recompor.
— Você está muito pálido. – continuava alarmada. – Será que alguma coisa daqui lhe fez mal?
— Não senhora. – assegurou – Tudo aqui está maravilhoso, impossível fazer mal a alguém. Eu é que não estava muito bem mesmo. Senti isso no caminho para cá. Nem deveria ter vindo. – arrependeu-se.
— Acho melhor passar a noite aqui. Pode ficar no quarto de Richard… 
—… não! Absolutamente, senhora. – engoliu a saliva que ainda encontrava-se grossa e tinha o paladar de vômito. Sua garganta ardia devido ao ácido estomacal. – Tudo o que quero é voltar para casa.
— Pensa em voltar para casa desse jeito? Está louco, menino? Viajar assim? Não vai aguentar.
— Aguento sim. – garantiu pondo-se de pé – Preciso apenas encontrar Lisa.
— Ela não está mais dançando. – informou Diana surgindo de repente.
Rebecca olhou-a feio, certa de que estava escutando conversa por trás das paredes. Se bem que era um pouco difícil com o volume que estava o som, porém, Diana tinha jeito de quem possuía competência para o negócio.
— E onde ela está? – quis saber a mulher. Diana levantou os ombros num gesto de ignorância. – Então vamos procurá-la. – pousou carinhosamente a mão num dos ombros de Kevin e conduziu-o para fora – Não deve estar longe.
Cada pessoa que encontravam, ela perguntava por Lisa e ninguém sabia. Até que cansou e resolveu não mais perguntar, só procurar.
Perderam a conta do quanto zanzaram por aquela fazenda e nada. Andaram em círculos durante um bom tempo, Kevin sentia-se fraco, até que Rebecca pensou em algo:
— Me diga, onde Richard parou?
Ele contou que fora perto do portão e foi para lá que eles foram. Rebecca conhecia o terrível costume do filho de ficar fuçando nos veículos mesmo sem precisar, então deduziu que talvez estivesse fuçando no seu e carregado Lisa para lá.
Exatamente. Lá estavam os dois, Richard e Lisa, dentro da caminhonete, se beijando. Kevin viu a satisfação de Rebecca e disse, se esforçando para sorrir, maliciosamente:
— Bingo! Parece que terei que arranjar outra condução para voltar para casa.

15 comentaram sobre a história:

  1. Este capitulo bateu em vários assuntos mas de certo que girou em volta do quanto as pessoas param e olham, aquando Kevin se apresenta em público! Além disso, notei que foi basicamente, o Kevin o principal neste capitulo , á volta dele. A desculpa dele para olhar somente para Richard e Lisa foi completamente esfarrapada, até me ri sozinha ao ver que ele se estava tentado convencer disso e que nem ele acreditou nisso, ou então entendi mal! O mal estar dele foi consequencia do quanto ele ainda se ressente perante olhares inoportunos e cochichos! Não é fácil afirmarmo-nos perante a sociedade e entao, se formos diferentes do que se costuma ver, é ainda mais dificil!
    Ainda não percebi bem o que se vai desenrolar daqui mas estou a gostar do que tens escrito!! Beijos, Cassandra
    ps: A Lisa beijar Richard acho que saiu um pouco forçado porque bem, aquando os capitulos diferente, demonstraste que ela apenas se interessava como amigo, pelo menos pareceu-me. Não esperava isto chegar!

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    1. Exato Cassandra, neste episódio onde Kevin fica, digamos, um pouco mais exposto do que nos episódios anteriores, destaca-se como as pessoas reagem diante do diferente, por esta razão, o episódio girou bastante em torno dele.
      Ahah, é verdade. Acredito que muitos de nós já tenhamos feito isto e ao mesmo tempo, negarmos para nós mesmos, fingirmos não nos importar.
      Eu penso que, estando no lugar de Kevin, também sentiria um mal estar muito grande. Porque é muito fácil dizer que não nos importamos com as atitudes alheias perante nós, porém, na prática não é bem assim que as coisas funcionam. Não é sempre que estamos fortes para receber determinadas atitudes negativas e desabamos, mesmo que tenhamos sido corajosos de assumir o que somos e isto seja muito diferente dos padrões impostos.
      A respeito de Lisa e Richard, isto será esclarecido aos poucos, com os novos episódios e... Quem nunca ficou com uma pessoa amiga? Pode ser isto... pode ser que não... ahah.
      Fico satisfeito que esteja gostando da história. Muito obrigado Cassandra.

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  2. Adorei a forma como ele deu a volta à piada do outro 'engraçadinho'.
    E fiquei com pena do final :(

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    1. Olá Soraia! Sim, ele realmente soube como virar a situação a favor dele.
      Sei que é uma torcedora para que Lisa e Kevin sejam um casal. ahaha.

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  3. Hummmmmm... Tadinho do Kevin!
    Acho melhor ele saber logo que está apaixonado e se declarar pra Elisa, senão a vai perder. Amei o capítulo Christian! Muito bom mesmo.
    Beijokas doces e uma semana de muita paz.

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    1. Obrigado Marly, obrigado pela força, pelo incentivo que tem me dado em meus trabalhos literários.
      Sobre a trama, tal como Soraia, é outra que torce para que Lisa e Kevin fiquem juntos. ahah.
      Uma semana de muita paz para você também minha querida.

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  4. Chris, eu só comecei a ler a sua história ontem, mas felizmente consegui chegar aqui hoje :D Estou a adorar realmente essa história! Tanto que nem sei quais elogios tecer. Devo admitir, que desde o começo, ou melhor, desde que Lisa saiu correndo atrás de Kevin, após ele ter confrontado a sua mãe, que desconfiei que algo se passaria entre ambos. E de facto, desde que ela o acolheu em sua casa que tenho vindo a denotar um certo clima muito bom entre eles. Sempre rindo e sorrindo. Kevin, é de todos, aquele de que mais gosto. Não apenas por ser a personagem principal, mas essencialmente pela pessoa que ele é. Não se importando com o que os outros acham de si, muito dócil e correto, em nada correspondendo ao que seria de esperar - segundo os padrões do mundo em geral - de um gótico, dark como ele. No entanto, adorei o modo como deu uma virada na história, fazendo dele uma pessoa direta e mesmo assim bastante simpática e dócil. Nunca dispensando também a sua ironia e sarcasmo que só lhe assentam mais que bem , completando a sua personalidade forte. Outra personagem que admiro imenso é Samantha. A menina revoltada, que passado um tempo e confrontada com a realidade, se torna nalguém mais justo e coerente. Penso que naquela familia, apenas ela e Anthony dispõem de algum bom senso! E como deve calcular, não concordo com a frieza de Elisa, mas acho que a maneira como a está a expor, a maneira como ela trata qualquer um dos seus filhos, a maneira como descreve esses momentos, está muito bem escrito! É um escritor brilhante, Chris! E eu estou a amar Ironia do Destino! *-* Como pode contar, a partir de agora, serei presença assidua aqui e seguirei esta história fantástica, porque eu estou mesmooo a adorar! Espero em breve ver mais algo rolar entre Kevin e Lisa, porque para mim, eles são um casal hiper fofinho. Pena que isso possa destroçar Richard, porque eu estava gostando dele! :D
    Parabéns ! Estou mesmo a gostar muito :D
    beijinho :*

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    1. O.O O que posso dizer diante de tal comentário?
      Muito obrigado e seja muito bem vinda Bree!
      É muito raro pessoas que lêem de modo tão voraz como você o fez na internet com Ironia do Destino, quando uma história já está bem adiantada. Meus parabéns. Eis a esperança de que as pessoas deixarão de preguiça em querer ler somente livros impressos e aderir ao século XXI tal como você está fazendo.
      Acredito que muitos leitores se simpatizem realmente com Kevin por ele possuir os atributos os quais foram citados por você. As pessoas realmente não esperavam um gótico ter uma atitude como esta visto que a sociedade os rotula de modo equivocado.
      Afirmo isto porque conheci alguns góticos e todos possuíam uma educação bem semelhante a de Kevin, eles me inspiraram a criar este personagem.
      A Samantha divide opiniões aqui. A Nya é fã dela e do Anthony, pelo bom senso deles, contanto, alguns acreditam que Samantha seja má e mimada, falsa. Os próximos episódios irão demonstrar quem realmente é Samantha.
      Elisa não possui um instinto maternal e por si mesma tem uma personalidade mais fria, calculista, ocultou da família um passado e acreditou que ele nunca viria de encontro a ela, porém, contra suas expectativas, ele veio e a atormenta desde então.
      Mais uma torcedora por Kevin e Lisa, com a diferença de que reconhece que Richard também poderia ser uma boa pessoa para ela.
      Muito obrigado pelos elogios Bree, também considero-a uma escritora brilhante, comecei a acompanhar sua história ontem e também serei presença assídua em Hurricane.
      Mais uma vez agradeço e dou-lhe os parabéns por não somente ser uma excelente escritora, mas leitora também.

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  5. Oi Christian!
    Adorei a nova parte! \o/
    Deu pra ver que Kevin tem um ótimo senso de humor e sabe se sair bem das situações, exceto quando é pressionado. Devo lhe dar os parabéns pela Diana que foi uma peça importante nessa parte e esclareceu muitas coisas. Como leitora da história eu a detestei, óbvio, é uma pessoinha bem irritante =P, mas é uma criação inteligente da sua parte.
    Rebecca também é outra personagem muito bem escrita, uma personalidade tranquila e amável, assim como a de Richard. E falando nele... é uma história de vida bem complicada, mas apesar de todo o trauma, ele continua tão simpático e amável, é de se admirar.
    Kevin está entre a cruz e a espada. Ele gosta de Lisa e ainda "não sabe" (acho isso lindo *-*), mas ao mesmo tempo conheceu a história do Richard e foi até acusado de querer atrapalhar sem nem ter feito nada. Quero ver como isso tudo vai se desenrolar...
    E ele é andrógino! *-* Apaixonei-me.

    Christian, meus parabéns, você tem o dom da escrita. ;)

    Beijocas,

    Defunta .

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    1. Olá Ismália! Que bom! \o/
      O Kevin deu uma virada a favor dele que ninguém estava esperando e se saiu muito bem. Experiência de quem vive a margem do preconceito da sociedade.
      Você foi a única que destacou Diana e Rebecca e adianto que Diana ainda será parte importante da história, portanto, acostume-se com ela. ahahaha.
      Richard tem um passado triste, contanto, isto não abalou sua confiança e amor as pessoas, ao que parece, não é verdade. Também simpatizo com este personagem, devo confessar e tal como a Bree, vocês duas foram as únicas que pensaram em como ficará Richard se Kevin realmente "descobrir" que gosta de Lisa e ela optar por ele. Estou gostando das diferentes reações que os personagens estão causando nos leitores.
      Isto é muito satisfatório.
      Muito obrigado pela presença constante e, principalmente, pela leitura, a atenção aos detalhes e não ler apenas por ler.
      E obrigado pelo elogio. :)

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  6. Olá,
    Conheci seu blog através do Google,e adorei estar aqui,sua história é magnifica,nos prende a atenção.Parabéns pelo blog e seu conteúdo.Já estou a te seguir.
    Felicidades.
    http://wwwavivarcel.blogspot.com/

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  7. Olá Fênix27! Seja bem vinda, e que bom que o Google está sendo útil para que mais pessoas possam conhecer esta história que eu compartilho com muito prazer.
    Coincidentemente, eu já sou um seguidor de seu blogue também. :)

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  8. Olá! :D Achei este capítulo muito tenso mas gostei bastante! :D Achei triste zombarem de Kevin... é injusto mesmo como as pessoas se limitam a julgar o exterior... Quanto à nova personagem (Rebecca), ela é bastante curiosa... não sei se gosto da personalidade dela. Pareceu-me um pouco "sonsa" e fiquei admirada com aquele romance entre Lisa e Richard! :O Eu sempre pensei que eles fossem só amigos e nada mais! :O No entanto, acho que esse episódio serviu para fazê-lo abrir um pouco os olhos e ter a certeza que sentia algo por ela, julgo eu! :D Muitos parabéns pelo seu trabalho! Eu estou a adorar e este projeto está fenomenal! :D Espero o próximo capítulo! ^^ :*

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  9. A intenção deste capítulo era causar tensão mesmo, fico satisfeito em haver conseguido. ahah.
    Tenso e triste sim, triste como pessoas são intolerantes as diferenças.
    Rebecca é uma personagem que pelo que vejo dividiu opiniões. E a respeito de Lisa e Richard, esperei mesmo que ninguém fosse esperar por isto, tanto quanto Kevin não esperou. E talvez seu julgamento esteja correto.
    Obrigado Hayley, o próximo capítulo em breve irã ao ar.

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  10. Pois sou :p
    Sou uma romântica incurável! ahah

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