O que levaria um gótico para aquele lugar tão peculiar?

Quem acompanha a história

terça-feira, 15 de novembro de 2011

CAPITULO 5 - Parte I

 Todos ficaram atônitos, até mesmo Jeremy. O tapa foi tão forte que chegou a estalar. Elisa permaneceu estática, sem modificar nem um pouco a sua posição segura de autoritarismo. 
Samantha voltou o rosto para ela, que havia sido virado com a força do tapa, segurando-o com uma das mãos a face avermelhada. Havia apenas fúria e revolta em seu olhar.
Abrindo um revoltado sorriso sarcástico, ela apenas disse, em tom não alterado, movendo a cabeça de um lado para o outro.
— Você é uma vagabunda mesmo... Eu ainda tinha um vestígio de esperança, mas agora... Agora você me provou que é uma vagabunda em todos os sentidos que possam haver no mundo! - alterou a voz na última frase.
Elisa avançou novamente sobre a filha, mas não teve chance de encostá-la, impedida por Anthony, que segurava firme em seu braço, enfurecendo-a.
— O que é, vai se mostrar agora um covarde que bate em mulheres, Anthony? Não consegue perceber o monstro que você educou?
— Não vejo nada que se assemelhe a um monstro aqui além de você. - foi a resposta que ele deu. - Consegue ter ao menos o mínimo senso do que acabou de fazer? - questionou, desta vez impaciente, coisa rara de se ver em seu temperamento.
— Eu só fiz o que ela mereceu! - retrucou. - E solte o meu braço.
— Para quê? Para atacar nossa filha novamente?
— Ela fez por merecer. - dizia com os dentes apertados, conseguindo se soltar num gesto abrupto com o braço. - Ela não tinha o mínimo direito de contar a Jeremy a respeito de minha vida pessoal.
Na cabeça de Jeremy iniciava-se uma tremenda confusão.
— Deixa pai. - Samantha entrou novamente no diálogo, impetuosa. - Ela me deu um tapa, nada mais que isto. Com o primeiro filho conseguiu fazer muito pior, abandoná-lo e agora vê-lo pelas ruas totalmente perturbado, pintado como um palhaço que, afinal, foi no que ela o transformou, em um palhaço.
Elisa novamente ameaçou atacá-la e novamente foi detida por Anthony.
Empinando o nariz, Samantha olhou bem fundo nos olhos da mãe e declarou:
— Sinto muito, mas eu não serei sua palhacinha. Se bater de novo, vai levar! - concluiu com a maior convicção do mundo. - Vida pessoal... - murmurou num riso baixo, passando pela mãe. 
E dirigindo-se ao pai.
— Eu só lamento pelo senhor. - tocou carinhosamente seu ombro. - Um homem íntegro como você merecia uma mulher decente e não uma vagabunda que joga o filho no lixo e ainda se acha no direito de tentar constituir uma família a base de mentiras. Lamento profundamente pai.
E altiva, passou por Jeremy, num olhar desafiador como quem diz "eu não falei?", afastando-se dali sem demonstrar desespero ou pressa. 
Mas antes de sair, não pôde evitar uma breve pausa em voltar-se e falar para a mãe:
— Acabou Elisa. Acabaram-se as mentiras, você mesma acabou se entregando... Não fui eu que fiz. Se eu fosse uma mentirosa como Jeremy pensou, você não teria agido agressivamente. Quem não tem culpa, não age de tal modo. Eu não lamento em nada o rumo que deu a sua vida, lamento o rumo que deu a vida de sua família e seus filhos e sim, mesmo odiando a ideia, incluo o palhaço bastardo que correu atrás de você.
— Este assunto é um assunto meu. - esbravejou Elisa, descontrolada. - Eu é que tinha que resolvê-lo quando deveria, se é que deveria falar para os meus filhos. Agora vejo que não devia ter te dito nada, Samantha. Você é uma garotinha imatura que…
— Então é verdade? – Jeremy interrompeu gritando, com a voz aflita. – Você é mãe daquele palhaço infernal que bateu aqui em casa há poucos dias?
Foi então que Elisa deu-se conta da besteira que estava fazendo. Tentando suavizar, virou-se para o filho, caminhando até ele com os braços abertos.
— Meu filhinho, vamos conversar direitinho… – falou como se ele fosse uma criança de um ano de idade.
— Não quero falar com você! – afirmou berrando e não a deixando sequer chegar perto. – Nunca mais! – gritou correndo para o quarto e batendo com a porta.
Elisa ficou com cara de boba. Agora um pouco mais em si, olhou para Samantha com um certo pesar, como se estivesse querendo pedir desculpas pelo tapa. Samantha não deu a menor chance para que isso acontecesse, ergueu a cabeça e afirmou antes de, finalmente, sair dali de vez:
— Estas são as graves consequências da mentira. No seu caso, mentiras. Sua vida inteira é resumida nisto e nem pena consigo sentir de você. 
Olhou a mãe dos pés a cabeça com expressão de novo e saiu, altiva, de cabeça erguida.
Suplicante, Elisa dirigiu o olhar ao esposo, mas este também não a confortou, tomando a mesma atitude de Samantha. Só que não com tamanha altivez.
Embora sentisse um pouco de vontade de chorar, Samantha não chorou. Nem em segredo.

Depois de tanto “Leva isso pra lá! Traz isso pra cá! Puxa isso! Carrega aquilo! Não, não vê que assim não está bom?” Lisa finalmente pôde voltar para casa. 
Finalmente em um modo de dizer, afinal, ela foi liberada apenas às nove e meia da noite! Sentindo dores por tudo quanto é parte, não acreditava que estava chegando em casa.
Quando virou a esquina e reparou que todas as luzes estavam apagadas, sentiu um gelo.
 Sua mente tratou de se precipitar e ir pensando no pior. 
Apavorada, correu o mais rápido que pôde (que levando em consideração o seu estado até que foi rápido mesmo) e abriu a porta com tudo.
Ela estava aberta, o que a atemorizou ainda mais. Em sua imaginação todas as coisas que tinha já tinham ido por água abaixo e assim que entrou na sala e avistou Kevin, sentiu um alívio indecifrável.
Na verdade, não era a casa toda que estava no escuro, apenas seu quarto, que tinha deixado trancado e a sala, que não estava numa escuridão total também. A tela do televisor proporcionava uma iluminação aceitável.
Ao vê-la entrar tão de repente e naquelas condições, Kevin examinou-a da cabeça aos pés com uma cômica cara de interrogação.
— Não me olhe desse jeito. – já foi avisando e se jogando com tudo no sofá onde ele se encostava para escrever na pequena mesa. – Fiz todo o trajeto de volta descalça. Não agüentava mais! Meus pés, assim como todo o meu ser, estão moídos.
Ele se virou lançando um olhar irônico:
— Todo o meu ser... Que poético!
— Vá pro inferno! – deu um empurrão em seu ombro que o fez voltar a olhar pra frente e rir. – Queria ver você encarar aquela velha horrível o tempo inteiro no seu ouvido. Ia ver o que é poético!
— Não me refiro ao seu trabalho, mas da forma com que se expressou.
— E de que forma me expressei?
— Teatral! – esticou o braço de modo dramático.
Ela riu.
— E então? Organizou tudo para a festa?
— Tudo e um pouco mais! Fiz trabalhos que nem eram meus.  – disse meio chorosa e no máximo do esgotamento. – Te garanto que se algum dia tiver coragem de cometer homicídio, essa velha é a primeira da lista!
— Foi tão bravo assim? – ele perguntou após soltar uma risada sutil.
— Eu estou podre! – tentou gritar mas não tinha forças. – Aquela velha ainda me paga. Nunca ouvi tantas exigências em toda a minha vida.
Kevin podia notar sua exaustão. Seu rosto estava abatido e a testa molhada de suor. Parecia até que sua respiração estava mais agitada.
— Não quer tomar alguma coisa? Posso trazer um copo do suco, preparo em um instante com as laranjas bonitas que comprou, se você deixar.
— Drácula de Bram Stoker! – exclamou olhando para a tela da TV com os olhos acesos.
Kevin desviou os olhos para a mesma e abriu um sorriso:
— Também gosta? – ela afirmou com um gesto de cabeça sem tirar a atenção do aparelho. – Eu desconfiava. Encontrei uma porção de livros interessantes sobre histórias de vampiros quando limpava a sua estante. Só não encontrei Drácula de Bram Stoker, por isso fiquei desconfiado e não certo se realmente gostava..
— Adoro. Quem admira vampiros e não é aficionado por Drácula de Bram Stoker?  Só não tive ainda a oportunidade de comprar o livro. As edições que encontrei eram muito caras. Tinha uma ilustrada que eu amei! – comentou com entusiasmo, esquecendo até um pouco da canseira e do próprio filme. – A capa dela parecia aveludada. Edição limitada. Cara era lindo demais! Só que o preço… – fechou a cara. –… era demais também. Mas ainda tenho esperanças de conseguir este livro, de encontrar um que tenha um preço mais acessível. É difícil, porém… Quem sabe?
— É... – ele disse. – Quem sabe...
Os dois ficaram calados um pouco, concentrados na tela.
— Já está quase no final.
— Não importa. Esse filme para mim é um clássico. Sabe quantas vezes assisti? – ele fez um leve aceno esperando a resposta. – Sete. – exibiu sete dedos.
— Mesmo? Eu assisti quinze. – contou com uma naturalidade espantosa.
Notando o seu assombro, acrescentou:
— Tudo bem, até que não foi tanto. O Drácula de Bela Lugosi eu assisti vinte e duas vezes.
— Vinte e duas?! – gritou tapando a boca imediatamente por causa da intensidade do volume que usou.
— Contadas nos dedos. – falou movendo a cabeça afirmativamente e piscando os olhos.
O queixo de Lisa caiu e ela preferiu não comentar mais nada. 
— Passou o dia todo aí? – indagou percebendo que estava no mesmo lugar em que estava pela manhã.
— Está louca? Claro que não!
Era claro que não. Estava vestindo outra roupa, uma camiseta preta, toda preta, sem estampa alguma e uma calça jeans azul-marinho. Lisa foi notar um pouco tarde demais, logo depois que acabou de fazer a estúpida pergunta.
— E então? Quer o suco ou não quer?
— Preciso tomar um banho primeiro.
— Pode tomar depois. Beba um suco antes.
Ela ficou indecisa.
— Vamos, Lisa! Eu preparo e trago para você num instante. – insistiu.
— Não sei. Não quero incomodar…
—… incômodo nenhum! – levantou disposto, fazendo menção de ir à cozinha. – Como vai ser? Com açúcar ou natural?
Envergonhada, acabou cedendo.
— Natural. – exibiu um sorriso tímido.
— Ok! Já, já tá saindo um suco natural! – foi para a cozinha e em pouco tempo retornou. – Foi por esse motivo, Drácula, que perguntei se chegaria por volta das oito pelo menos. Estava quase certo de que gostava. Não foi para controlar a sua vida. – revirou os olhos imitando com humor o seu tom de voz.. Lisa não pôde deixar de rir. – Bem, vamos ao suco! – saiu.
Enquanto ele preparava o suco, Lisa assistia ao Drácula não com muita atenção. Como sabia o filme de cor e lhe interessava muito mais poder ler o livro, desconcentrou-se e preferiu dar uma olhada ao redor. Estava tudo tão organizado. Nem parecia ser a mesma casa!
— Sabe que você me assustou? – comentou alto para ser ouvida..
— Eu? Por quê?
— Deixou tudo escuro…
—… achou que tinha roubado tudo e me mandado? – adivinhou com senso de humor.
— Não. – não quis admitir. – Claro que não. Apenas estranhei. Esqueci que é um dark, amante da escuridão.
— Amante da escuridão… Tá aí! Gostei! É um ótimo título para um poema.
Endireitando-se no sofá, trazendo o corpo para frente, ela caiu os olhos na mesa de centro onde Kevin deixara suas coisas.
— Anne Rice? – apanhou o livro.
— Gosta?
— Confesso minha ignorância, nunca li Anne Rice. Em minha mente limitada ela não passa da criadora de Lestat.
— Ela é uma ótima romancista. Eu recomendo.
Quando foi abrir o Cântico de Sangue, uma folha caiu do centro dele direto em seus pés. Franzindo a testa de leve, ela desdobrou a folha e leu o que estava escrito em letras góticas com caneta tinteiro negra.

“Quando o tempo passa, tudo muda de rumo.
A direção do vento mudou.
Estou sentindo o frio atravessando a minha espinha.
Quanto tempo passarei sozinho neste mundo de ninguém?
Quanto tempo ainda viverei sem saber realmente o que é a vida?
A resposta nunca vem e ninguém quer ouvir o que tenho a dizer.
Ouçam!
Há alguém me ouvindo?
Acho que ninguém está me ouvindo. 
Ninguém.
Tudo parece deserto e o deserto não é como estas ruas.
O mundo está em chamas. 
E a única coisa que sinto é o frio.” 

— Aqui está. – anunciou trazendo uma bandeja com dois copos de suco.
Ao ver Lisa olhando o que escreveu, seu sorriso de imediato se desfez.
Ela levou um pequeno susto ao ser pega em flagrante, porém, foi algo momentâneo. Olhando fixamente dentro de seus olhos, não conseguiu ignorar aquilo.
— É como se sente? – perguntou sentida, mostrando o papel que ainda estava em sua mão.
Apressadamente, ele largou a bandeja na mesa e tomou o livro e a folha dela.
— É só um poema. – deu de ombros com os olhos abaixados no mesmo. – Não quer tomar o suco? – ofereceu logo depois que dobrou o papel e guardou novamente dentro do livro, que se encontrava na mesa, outra vez.
Lisa o observava com ponderação, entretanto, não dava para ocultar o quanto estranhou a atitude dele. Percebendo, ele usou um sorriso artificial como disfarce.
— Não ando com muita inspiração ultimamente. – justificou tratando de mudar logo o rumo da conversa. – Coloquei duas pedras de gelo. – entregou-lhe o copo.
Kevin notou que seu comportamento estava muito estranho.
— Experimente. – pediu ao ver que nem encostava os lábios na borda do copo.
Meio distante, ela experimentou e não disse nada.
— E então? – procurou saber.
— E então o quê? – indagou avoada.
— Como e então o quê? – sentiu uma ponta de indignação. – O suco. Ele está bom ou não está?
— Ah! Claro, o suco! – caiu na real e sorriu. – Está ótimo.
— Mesmo?
— Mesmo. – assegurou sem poder olhar muito em sua cara.
Estava se sentindo meio estranha, incômoda. A maneira que ele estava atuando, servindo-a daquele jeito, fazia-a se sentir mal. Pensava que não era por uma questão de machismo, embora não estivesse muito certa se estaria se incomodando tanto se uma mulher estivesse no lugar dele, entretanto, acreditava que fosse por uma forma geral mesmo. Nunca ninguém havia feito isto por ela, nem sua própria mãe, ou seja, era algo novo, que não deixava de ser esquisito.
Embora, analisando, nunca ninguém faria o que fez por Kevin e, portanto, encararia tudo aquilo como uma forma de retribuição. Ou tentaria.
Os dois passaram o tempo assistindo televisão. Depois de Drácula vieram mais dois filmes interessantes e se não tivessem se dado conta do horário, teriam amanhecido em um filme atrás do outro.
Apesar de serem obras de muito boa qualidade cinematográfica, Lisa não se concentrou muito em cima delas. Tentou, conseguiu pegar o sentido das tramas, porém, como era habitual, não mergulhou intensamente nas histórias. O que tinha lido martelava em sua cabeça e atrapalhava um pouco.
Olhava para Kevin, tentava imaginar se o que havia naquela folha seria realmente os seus sentimentos ou apenas rimas. 
Mas não havia rimas...
Com o passar dos minutos estava cada vez mais convencida de que aquilo era altamente pessoal, que Kevin estava se sentindo tão solitário e perdido quanto mencionava em seu poema.
Ninguém tocou em mais nada. O assunto morreu ali, mas Lisa notou que no decorrer de toda a noite, apesar de tentar esconder, ele estava bastante apreensivo.

Apenas dois abajures, um em cada criado-mudo iluminavam o quarto de Anthony e Elisa. Ele mantinha-se sentado na cama, coberto com um lençol branco da cintura para baixo sem a mínima intenção de fazer o mesmo do que ela, deitar-se. Elisa estava deitada, de costas para ele e olhos fechados, fingindo estar adormecida. De forma alguma poderia dormir depois de passar por um dia tão agitado.
Cansado de ficar acordado, sem ter com quem falar, Anthony a chamou:
— Elisa.
Ela não respondeu, prosseguiu com sua encenação.
— Elisa… – persistiu.
Nem um sinal.
Perdendo a paciência, ele falou:
— Elisa, consegue não fingir apenas alguns minutos em sua vida? Sei que não está dormindo coisa nenhuma!
O silêncio permaneceu intacto.
— Elisa, estou falando com você. Custa me responder?
Parecia que custava.
— Elisa! – sacudiu o seu ombro.
Nada.
Respirando fundo, não desistiu de falar, sabia que estava sendo ouvido.
— Certo, se quiser continuar com esse joguinho ridículo de Bela Adormecida da terceira idade, pode continuar. – em poucos instantes ela abriu os olhos sem que ele percebesse, ofendida com a observação. Terceira idade... Ela? -  Sei que está acordada mesmo. Agora que Samantha e Jeremy sabem da verdade, quero saber que providências tomará com seu outro filho. Como vai resolver essa situação, Elisa?
Ela abriu os olhos de forma que ele não notou outra vez, apavorada com o que acabara de ouvir. 
O que ele estava dizendo, afinal?
— É bom que pense nisso. – afirmou levantando e calçando os chinelos marrons. – Alguma atitude terá que ser tomada, porque não tolerarei que as coisas continuem o caos que estão.
Escutando a porta bater, Elisa novamente fechou os olhos, querendo agora, mais do que nunca, dormir de verdade. De preferência para sempre, tornando-se o que, segundo ele disse, uma Bela Adormecida da terceira idade.  

Eram três horas da madrugada e Samantha permanecia acordada. Esperava na sala o dia chegar sem ao certo saber o porquê, que diferença faria ele chegar ou não. Sua vida e toda a estrutura de sua família estavam em uma revolução e não havia nada que pudesse mudar este quadro. Refletia como, em questão de segundos, uma vida toda poderia modificar tanto, virar do avesso como a dela virou. Estava ciente de que nunca, nada voltaria a ser como era antes. Nada. Temia que seu irmão não se recuperasse desta mudança tão brusca, porque para ele estava sendo muito mais difícil do que para ela. Não possuía o amadurecimento e nem a força para driblar os problemas que a ela não faltavam.
O que não temia, mas sim, tinha certeza absoluta era do relacionamento com sua mãe. A partir daquele tapa, tudo tornou-se muito diferente. A raiva que sentia era tão grande e profunda que não imaginava que algum dia, nem que fosse após uns oitenta anos, seria capaz de perdoar.
Anthony surpreendeu-se ao descer as escadas e encontrar a filha sentada no sofá, com seu pijama branco e seu par de pantufas de coelho da mesma cor. Samantha não demorou para notar sua presença.
— Não consegue dormir, minha filha?
Levantando os ombros, disse:
— Nem sequer tentei.
Resignado, ele se aproximou e sentou ao lado dela, enlaçando-a e trazendo-a para perto de si.
— Está magoada com sua mãe, não é?
— Magoada? – respirou fundo. – Não sei se magoada seria a expressão correta a ser usada, papai. Puta da cara, com perdão da palavra, descreve muito mais como me sinto em relação a ela. – movia a cabeça positivamente em revolta. 
— Posso compreender.
— Por quê? Também está puto da cara?
Ele riu com pouco ânimo.
— O que você acha. Sam? Ela nos mente a vida toda e ainda por cima acha-se no direito de bater em você. Qual pai não ficaria… Como é mesmo?
— Puto da cara! – falou rindo.
— Pois é, puto da cara. – pensou. – Puto da cara… É assim mesmo que estou. – respirou fundo, visivelmente arrasado.
— Estou preocupada com Jeremy, não jantou, não saiu do quarto pra nada.
— Também estou preocupado. Por mais que tente nos enganar, Jeremy é muito sensível. Mas ao mesmo tempo é forte.
— Acha que vai superar isso?
— Pode demorar um pouco, mas tudo se supera, minha filha.
— Você tentou falar com ele?
— Não. Você tentou?
Pela forma com que ela afirmou não precisou perguntar mais nada. Durante alguns minutos permaneceram enlaçados do jeito que estavam, calados. Minutos que pareceram séculos. Ambos se encontravam com a mente pelo lado do avesso.
— Elisa está querendo ignorar tudo, deixar as coisas como estão. – contou. – Não aprovo isto.
— Como assim, pai? Do que está falando?
— De sua mãe. Ela se encontra numa situação bastante cômoda depois de causar tudo o que causou a todos nós, incluindo Kevin. Se pensa que as coisas continuarão dessa maneira, ela está muito bem enganada. Não vou permitir que essa bagunça prossiga. Sua mãe terá que deixar de ser covarde e principalmente acomodada e tomar uma atitude sensata com essa história. Se não puder resolvê-la, o que acredito que realmente não possa, terá que ao menos tentar remendar o que rasgou.
Sem entender onde seu pai estava querendo chegar, Samantha desvencilhou-se devagar dos seus braços e com um olhar firme, mas de dúvida, para cima dele, indagou:
— O que está querendo dizer, papai?
— Que se Elisa não tomar uma providência e tentar suavizar os seus erros conosco, não a aceitarei mais.
A posição radical dele a estava assustando.
— O que ela pode fazer? O que está feito está feito. Não vamos poder mudar.
— Eu não disse mudar. Nem Elisa e nem a gente pode mudar o que passou, não há como modificar o passado. Quanto ao futuro…
— Papai, o que tem em mente, hein? – apertou com suavidade os olhos.
Sem muitas delongas, ele esclareceu:
— O que eu acho é que o mínimo que Elisa deve fazer é nos pedir perdão por tudo e assumir de uma vez por todas o filho que teve e abandonou. Mesmo ele já sendo de maior, se ele veio atrás, é porque precisa dela.
Cada vez mais Samantha achava-se num labirinto de confusões e temores. Captando isso, ele achou melhor ser mais claro:
— Não se pode evitar o que já está inevitável, Samantha. O que acho que sua mãe deve fazer, o mínimo que ela pode fazer, Sam, é trazer seu primeiro filho para morar aqui conosco.

16 comentaram sobre a história:

  1. Uma mentira pode estragar a vida de muitos... Penso que Kevin é a maior vítima dessa negação dela em relação ao passado, pois tentou consertar um erro com outro erro, se é que gerar um filho pode ser considerado erro.
    E ainda acho que a Samantha mereceu o tapão na cara, não por contar a verdade, mas pela maneira que falou com a mãe. Quando a gente age no mesmo patamar, acabamos perdendo a razão.
    Christian, eu ainda nao tinha seguido nenhum enredo por capítulos e estou adorando. Eu morro de medo de filmes de vampiros, não assisto de jeito nenhum, pois depois fico sem dormir.
    Esperando a próxima postagem, meu escritor querido.

    Beijokas doces.

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  2. Oi Christian!
    Uau O_O'
    Fiquei tão admirada com essa nova parte que até perdi as palavras e demorei pra juntar todas e colocar num comentário só. Sei que sempre digo isso, mas parabéns, você consegue deixar o leitor com os olhos grudados na história. Isso é um dom. :)
    Samantha tem uma personalidade muito difícil de lidar, parece ser do tipo que perde a confiança fácil e o respeito também.
    Jeremy deve estar arrasado, é preocupante a maneira como ele agiu no momento em que descobriu as mentiras da mãe. Agora é esperar pra ver como ele vai ficar depois que a poeira baixar... (se baixar)
    O poema do Kevin é tão triste, mas ao mesmo tempo tão compreensível. Apesar de muitas vezes não transparecer, ele está com a mente povoada por dúvidas, mágoas e culpas que não são dele, mas mesmo assim ele sente. No lugar dele, acho que eu teria explodido com tantas emoções juntas.
    As dúvidas que me perseguem agora: Será que o Kevin aceitaria viver numa casa onde as pessoas o consideram um intruso, inclusive sua própria mãe?
    Será que Elisa teria coragem de assumir esse filho que ela tanto se esforça pra fingir que não existe?
    Acho digna a intenção do Anthony e até justa, levando-se em conta a linha dele de raciocínio, mas infelizmente ele terá que contar com a compreensão da família e, pelo visto, vai ser difícil...

    Obrigada por me presentear com uma leitura tão bacana!

    Beijocas,

    Ismália .


    Obs.: Realmente, é inevitável ler um texto e não pensar que o autor derramou sua intimidade nele, mas ainda insisto que alguns autores escondem seus sentimentos muito bem.

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  3. Uma decisão inesperada. Será que dará certo, depois de tudo? Um abraço, Yayá.

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  4. Cada vez mais emocionante! Samantha é tão crítica e corajosa que me faz lembrar uma personagem de uma série, Violet de American Horror Story. Gostei imenso do que fez com este capítulo sobretudo no avanço de Lisa e Kevin. Já se nota ali um clima entre ambos embora ele se mostre um tanto distante e triste mas creio que a companhia dela colmate esse sentimento ;) Anthony, há deve ter calculado que eu vou dizer que ele é extremamente sensato e que por essa razão é das personagens que eu mais admiro! *-* Acho que todas as pessoas deveriam ser como ele! :D Os meus parabéns (eu sendo repetitiva haha) e espero mais um capítulo! ;)

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  5. As mentiras nunca são boas. Ai como eu adoro acompanhar esta história :D

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  6. Eu estou tão atrasada consigo, em relação a responder aos teus comentários.
    Agora, em relação a estes novos capitulos, comentando também o anterior ... : não sei mesmo que dizer. O que estás a retratar são situações realmente difíceis! Envolvem sentimentos fortes e nem sei o que dizer mais. Só que, Parabéns! Tens conseguido envolver-me nesta trama. Consigo sentir o desespero de Kevin, a desilusão de Sam e Anthony ao constatar que afinal Elisa é bem capaz de atitudes que eles julgavam não encontrar na pessoa com que Anthony casou e fez vida conjunta, e na mãe que Sam admirava. Uma mentira, uma escolha que achamos ser a melhor no momento, pode destruir um futuro! E acho que Elisa não esperava o que veio. Achou que Kevin ficaria perdido pelo mundo e nunca a acharia! Estou realmente a gostar desta história!! mais uma vez, parabéns pois conseguiste encher as tuas palavras com os sentimentos que querias transmitar, em tuas personagens. Continuo, assídua a esta história, um pouco atrasada desta vez mas agora já tenho mais tempo e já posso dedicar-me aos meus textos, a deliciar-me com os meus blogues favoritos (seu incluido, acho que nunca o disse). Irei actualizar-me em teus posts no Escritos Lisérgicos!
    Beijo, Cassandra ;)

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  7. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk não é você que está desatualizado musicalmente, eu é que sou antiga, e é uma sessão nostalgia mesmo. Olha sou tão antiga que na postagem anterior a essa fiz homenagem a minha filha que fez 25 anos e dia 23 meu filho faz 25 anos... Por isso eu disse que escorrego dessa história de idade mais que bagre ensaboado.
    bjks

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  8. mesmo ;(
    tambem sigo o teu ;)
    gosto *:*

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  9. Olá Marly. Por vezes analiso também o poder destrutivo que pode haver em uma mentira. O personagem Dr. House afirma que todo mundo mente e a única variável é sobre o quê. Todos mentimos, este "sobre o quê" é que precisa ser analisado. Se sua mentira irá prejudicar somente a si ou aos demais, pois penso que a maioria das mentiras deixam sempre alguém prejudicado.
    Neste caso, devo concordar com você, como autor também considero que Kevin seja a maior vítima da trama, por ser rejeitado duas vezes.
    Ahah, continua sendo uma das defensoras do tapa de Samantha? Como minhas leitoras são violentas. ahah. Estou brincando. Entendo o porquê de alguns defenderem esta atitude de Elisa, principalmente quem já tem filhos, acho que não tolerariam que acontecesse o mesmo se eles reagissem com a petulância que Samantha atuou.
    Escrever um enredo em capítulos para mim não é algo novo propriamente dito porque já escrevi alguns fanfics, mas esta está sendo como uma experiência nova por ser algo mais compromissado, um livro que pretendo publicar em breve e as opiniões de vocês são muito mais consistentes do que as do leitores que eu costumava ter. E fico satisfeito em saber que estão gostando.
    Ahah, eu agora no twitter sugeri para uma seguidora um filme em que o sangue espirra até no camera man e ela disse que se ela visse um filme destes, nunca mais dormiria.
    A próxima postagem virá em breve, poetisa e escritora inspiradora.

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  10. Oi Ismália! Esta realmente é a minha intenção, prender o leitor. O escritor que não consegue fazer isto em meu ponto de vista não é um bom escritor, talvez nem o seja.
    Samantha é rebelde e tem sido uma personagem contraditória, há os que admiram e os que pensam que ela tenha merecido apanhar da mãe.
    Jeremy ainda levará um tempo para poder digerir todos estes acontecimentos, isto certamente que sim.
    Você foi a única leitora que deu atenção ao poema de Kevin e sim, pelo constrangimento que ele sentiu ao ter algo tão pessoal sendo lido, apenas confirma de que sente-se exatamente como na poesia escrita.
    Quanto as suas dúvidas, agora dando uma opinião pessoal e não como autor, ou seja, não direi o que aconteceria, estou apenas me colocando no lugar dos personagens. Eu, no lugar de Kevin não me sentiria nem um pouco a vontade em morar naquela casa onde seria um intruso, um indesejado apenas por ser a casa de minha mãe biológica e, inevitavelmente um direito meu, contanto, mesmo assim, eu não aceitaria.
    E Elisa é uma pessoa imprevisível, poderia não aceitar, tanto como poderia aceitar mas fazer a vida do passado que retornou um inferno. Há estas opções.
    Anthony é, como uma leitora disse, a pessoa mais sensata da trama e devo concordar.
    Eu que agradeço por estarem acompanhando a minha história, a opinião dos leitores antes de publicar é uma coisa nova e arriscada e até o momento está sendo positiva, para mim é muito bom.
    A respeito de sua opinião a respeito do autor, concordo em partes, por vezes nos inspiramos em outras situações que presenciamos, mas há sempre parte de nós ali, é inevitável.

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  11. Eu penso que seria um pouco difícil de dar certo Yayá, visto como anda a situação dentro daquela casa.

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  12. Acredita que ainda não baixei esta série para assistir? Há tantos seriados que por vezes me perco em me atualizar em alguns, mesmo que estes sejam antigos.
    Será que está havendo um clima entre Lisa e Kevin? Talvez...
    Anthony é realmente de uma postura admirável depois de tudo o que aconteceu. Eu não seria sensato assim, com certeza. ahah.
    Muito obrigado e breve novo capítulo.

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  13. Não mesmo Soraia, sempre trazem consequências, sejam elas grandes ou pequenas, mas as trazem.
    E eu adoro saber que adora acompanhar minha história. :)

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  14. Cassandra, senti sua falta por aqui, contanto, eu entendo muito bem o que é falta de tempo para o mundo virtual pois a realidade sempre deve ser prioridade. Mas me contento em tê-la de volta, uma de minhas leitoras mais fiéis.
    Ler todos estes acontecimentos de uma vez suponho que deve ter provocado realmente emoções fortes.
    Ao ver um leitor declarar que conseguiu sentir os sentimentos das personagens e se envolver na trama, para um autor é altamente satisfatório e como autora, deve saber bem como é.
    Elisa estava mesmo muito segura de si pensando que Kevin ficaria perdido pelo mundo, mas a vida surpreende.
    E me contento em saber que meu blogue está na lista dos seus favoritos, apenas posso dizer que Silent Hill também está entre os meus e que aguardo novos episódios de Nem perdida, nem achada que para mim é uma história além de original, muito bem escrita.

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  15. Ahaha, Marly me surpreendeu demais você ter filhos desta idade com esta cara de menina que tem. A sério. É assustador. O.O

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