O que levaria um gótico para aquele lugar tão peculiar?

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quinta-feira, 15 de março de 2012

CAPÍTULO 10 - Parte I

 Lisa instintivamente recuou dois passos e não pôde se manter sentada. Estava atônita. Meio arrependido do que tinha acabado de dizer, Kevin voltou para a rua e ela, ficou mais de meia hora daquele modo, presa ao sofá, procurando entender o que se passava e principalmente, recuperar-se do quebrantamento ao qual foi submetida.

Apesar das tentativas de Jeremy e Elisa, o clima na hora do jantar não estava nada ameno. Enquanto conversavam com um entusiasmo simulado, procurando convencer que tudo sempre corria normalmente naquela casa, Samantha e Anthony permaneciam mudos, cedendo atenção apenas ao prato de comida. De vez em quando se entreolhavam, sérios, com uma vontade tremenda de menear a cabeça sem parar diante de toda aquela hipocrisia.
Elisa não sabia falar em outra coisa além do bendito convite que recebera, Samantha já estava com nojo do irmão porque agora, na frente do pai, ele bancava o interessado no assunto, só pra ver se amenizava a situação. 
Não adiantava. Eles poderiam arrancar os cabelos porque nada mudaria. Samantha e Anthony mantinham-se impassíveis. Anthony chegou até mesmo a ser cruel dizendo que não estava se importando nem um pouco e acabou por declarar que não iria a esta festa, limpando a boca com o guardanapo, lançando-o na mesa e retirando-se sem pedir licença. Também sem pedir licença, Samantha retirou-se seguindo-o até a sala.
Ele estava esgotado. Jogou-se na poltrona com exaustão e limpou o suor que lhe escorria na testa com os olhos fechados. Em silêncio e o tempo todo com o olhar em cima dele, Samantha dirigiu-se à adega e preparou-lhe um drinque. Uma dose de whisky com gelo.
— Oh! Obrigado, minha filha. – agradeceu quando ela colocava o copo à sua frente, agachando-se ao lado da poltrona. – Muito obrigado. Você é um anjo. – acarinhou como pôde o cabelo preso. – Era isso mesmo que seu velho pai estava precisando.
— Sempre sei do que precisa, papai.
Ele sorriu numa concordância e tomou a bebida quase toda de uma vez. Refletindo uns segundos, ela disse com a voz dócil:
— Papai…
Ele a olhou com atenção, o que a estimulou a prosseguir:
— Acho que deve ir à essa festa, sim. Falo sério, paizinho! – usou um tom leve de repreensão ao vê-lo virar a cara com desdém. – Tudo o que vem ocorrendo e que muitos… - levou o olhar para a porta aberta da sala de jantar. - … andam fingindo que não, tem lhe esgotado muito. Acho que o senhor precisa mais do que nunca de um pouco de distração.
— E você acha que ir à uma festinha tosca de dezesseis anos, de uma garotinha mimada, com todas aquelas tradições cafonas é distração? Minha querida, posso estar velho, mas ainda não cheguei ao cúmulo de gostar de jogar bingo e coisas desse tipo. 
Samantha não evitou uma risada, afinal, sobre festas de dezesseis anos, compartilhava da mesma opinião do pai.  
– Francamente, meu amor… Se acha que vou me distrair com um negócio desses, não me conhece nem um pouco.
— Ô papai! – disse ainda rindo. – Não foi o que quis dizer. Sei que não é nada divertido ir a essas coisas se temos a intenção de prestar a atenção nelas.
— Se não for para prestar a atenção, para que vou então?
— Use a cabeça, papai! Quando eu era criança, não ia à igreja por causa do culto, mas sim, porque um garoto que estava interessada ia todos os domingos.
— Oh! Bom saber! – exclamou divertido, fazendo-a rir de novo. – Agora você está proibida de ir à igreja!
— Tudo bem. - sacudiu os ombros. - Ele não está mais lá.
— Não? 
— Mudou-se para a Flórida há uns dois anos atrás!
— Dois anos atrás e você já pensava em garotos? – ela deu uma gargalhada. – Meu Deus! Onde eu estive todo esse tempo?
— Não sei, papai. Não sei.
— Jesus… - ficou pensativo. – Não se acha muito precoce, não?
— Não. – negou controlando os risos. – Bem, talvez… - confessou diante do cômico olhar de soslaio dele. – Mas não é sobre isso que estávamos falando! – desviou. – O que estávamos falando… O que é que estávamos falando mesmo?
— Até se perdeu, não é?
Risonha, ela corou.
— Mas tudo bem, vou te salvar. Estávamos falando sobre os dezesseis anos.
— Claro! Os dezesseis anos! Pois é, como estava dizendo…
—… você ia à igreja, não por causa do culto, mas por causa de um garoto…
—… papai!
— Tudo bem, continue. O que a sua igreja, ou melhor, o seu garoto, tem a ver com essa festa porre que você chama de distração?
— Aí é que está o ponto. Não estou chamando esta festa de distração. O que estou dizendo é que indo a esse “nobre evento” e não levá-lo a sério, pode se distrair.
— Me diga como. Como ficar indiferente a tamanha cafonice?
— É difícil, mas dá. Lá o senhor encontrará amigos…
—… amigos! – soltou um muxoxo. – Gente chata que só fala com você porque tem grana!
— Terry Taylor não é assim.
— Terry Taylor… - pensou.  – É, Terry Taylor, não. É um bom amigo. 
— Então? Acha que ele não estará lá?
— Terry? – riu. – Terry não perde uma festa que tenha bebida, mesmo que seja um mero ponche. O cara é um beberrão!
— Neste caso, já tem uma distração. Faz tempo que não se encontram para uma bebidinha e uma partidinha de pôquer, não é mesmo?
— É verdade.  – passou a mão no queixo, reflexivo. – Seria interessante passar umas horinhas com Terry.
— Eis a oportunidade! – disse com a maior empolgação.
Ansiosa, ela esperava uma resposta.
— Você tem razão, meu amor. Irei à essa festa, sim. Mas só por causa de Terry!
Samantha quis pular de alegria, mesmo sabendo que sua mãe a iria querer matar. Lutou tanto para tirá-lo do vício do pôquer e agora ela vinha para esculhambar tudo.
— Eu sempre tenho razão, papai. – declarou levantando, com o intuito de ir para o quarto.
No andar de cima, no meio do corredor, cruzou com a mãe. Levou um pequeno susto, pois não a tinha visto subir. Apenas esperava que não tivesse ouvido sua conversa.
Como de costume, Elisa barrou o seu caminho. Apreensiva, Samantha não disse uma palavra, esperou que ela dissesse.
— Acha que me esqueci do que aconteceu ontem?
— O que aconteceu ontem? – indagou fingida.
— Você sabe muito bem, sua cobrinha. Esse negócio de ter ido à casa de Lisa tá engasgado aqui até agora. – passou a mão pela garganta, num gesto como se fosse cortá-la.
— Azar o seu. – ultrapassou a mãe indo direto para a porta do seu quarto. – Você não viu nada ainda. – ameaçou com sutileza, armando um sorriso sarcástico.
— Samantha, o que está querendo dizer? – pulou em cima, sem disfarçar a tensão.
Samantha fechou a porta bem em sua cara. Intrigada, Elisa desceu para queixar-se das malcriações da filha para o marido e recebeu em troca o inesperado. Ele defendeu Samantha e de repente, a discussão alastrou e tomou rumos diferentes. Logo Jeremy e Samantha já estavam envolvidos, atraídos pelos gritos dos pais. 
Da cozinha, Mary e Elizabeth acabavam de lavar as louças totalmente em silêncio, ressabiadas. Percebiam que desta vez a coisa estava ficando muito mais feia do que costumava ficar, que não era uma discussão como qualquer outra.


Oito horas, quarenta e cinco minutos, dizia a televisão para as paredes. A noite caíra sem que Lisa percebesse. Terminou a limpeza de forma mecanizada, aliás, nem soube como conseguiu, jogou-se debaixo de uma ducha fria e foi para a cozinha. Sua intenção era de esquentar a comida que havia sobrado, mas acabou apenas pondo a mesa. Pôs somente para si mesma. A noite caíra e nada de Kevin voltar.
Sentou-se apoiando um dos cotovelos na toalha xadrez de azul escuro com branco e pôs-se a brincar com um copo vazio. Girava-o de leve pela borda com o dedo indicador, fixando-o com os olhos quase vesgos.
Continuava estarrecida. Não conseguia recuperar-se da discussão que tivera com Kevin à tarde e principalmente, do que ele dissera. E como dissera.
Os pensamentos que a invadiam contra sua vontade amedrontavam-na terrivelmente. Não queria acreditar que trouxera um assassino para dentro de sua casa, por alguns momentos sentia que era até ridículo passar uma coisa dessas pela sua cabeça. Kevin parecia tão sensível, talvez o homem mais doce que conhecera. Seria o cúmulo sequer imaginar que seria capaz de… 
Só que as próprias palavras que saíram de sua boca confirmavam! Ele disse com todas as letras que havia matado sua alma gêmea.
Um gótico matar sua própria alma gêmea, que sentido faria isso? Se era o que aparentemente eles mais prezavam. E depois, como Kevin mataria uma pessoa se tem medo de chegar perto de uma simples faca ou qualquer objeto cortante que fosse? Arma de fogo? 
Não! Nada fazia sentido!
Mesmo assim, um lado seu morria de medo dele agora e desejava que nunca mais voltasse.
Perdida no meio de todas essas confusões, sua mente ainda conseguia captar o que o aparelho de TV dizia, era alguma coisa sobre um assassino em série que fora capturado em New York. 
Assassino. Esta palavra já a estava perturbando um pouco mais do que deveria.
Não sentia o menor apetite e nem a mínima vontade de levantar daquela cadeira. Não tinha vontade de nada, em realidade. Queria apenas acordar e descobrir que tudo não passara de um sonho, ou melhor, um pesadelo e que Kevin era a mesma pessoa que tinha acolhido em sua casa, a mesma pessoa amável, cati-vante. 
Entre todo o caos em sua mente, dentro dela havia algo o qual tinha certeza: nunca mais o veria com os mesmos olhos. 
Era triste ter que reconhecer, mas era verdade. Talvez estivesse sendo injusta, entretanto, ele não tinha dado outra escolha. Foi muito claro no que contou. Deu pra perceber que não fez o menor esforço para deixar lugar a dúvidas.
De repente, ouviu um barulho vindo da sala. Ficou tão assustada que deixou o copo escorregar de suas mãos e romper-se no piso em vários pedaços. Um grito moderado escapou-lhe da garganta e seu corpo instintivamente deu um pulo para trás.
Num gesto automático, agachou-se no chão para recolher os cacos de vidro que se espalharam por quase toda a peça.
Não menos assustado, Kevin surgiu na porta perguntando:
— O que foi isso?
Lisa, sem poder disfarçar o pânico que sua presença causava, levantou os olhos, sobressaltada e esclareceu com a voz impaciente e trêmula:
— Não foi nada. Um copo caiu, só isso.
— Como foi que caiu? – quis saber.
— Caiu caindo, oras! Escapou da minha mão.
Uns segundos de um silêncio estranho prevaleceu.
— Só não me ofereço para ajudar porque… Você sabe. – desculpou-se num tom suave.
Mais uma vez ela levantou os olhos, só que de um modo compreensivo e não, apavorado.
— Eu sei. Tá tudo bem. – tranquilizou.
Em seguida, voltou a concentração para o que estava fazendo. Kevin observou-a por uns instantes antes de avisar:
— Vou tomar um banho.
— Certo. – falou sem tirar os olhos do chão.
— Você já tomou?
— Já. Pode ocupar o banheiro à vontade.
— Obrigado. – fez menção de ir e logo parou. – Já jantou? 
— Não. Não tenho apetite.
Pensativo, ele se retirou sem dizer mais nada. Lisa notou uma poderosa hesitação em seu comportamento. Não parecia mais ser o Kevin agressivo e intolerante de horas atrás, parecia mais ser o Kevin que conhecera, apenas um pouco mais arredio..
Não demorou para escutar o chuveiro ligar. Em poucos minutos recolheu os cacos maiores e os menores restantes varreu para os fundos. Assim que se livrou de todos eles, percebeu que o chuveiro já tinha sido desligado e voou para a sala. Certamente ele ia querer jantar e o maior tempo possível que pudesse manter-se afastada pensava que seria melhor. Por um momento chegou a arrepender-se de não ter trancado a porta antes que ele tivesse entrado. Poderia parecer paranóia, porém… Porém segundos depois já estava se culpando por pensar desta maneira! Essa oposição de pensamentos a estava enlouquecendo.
Não pôde deixar de dar um pulo de susto e sentir um frio na barriga ao ouvir a porta do banheiro abrir. Entrando na sala, ele percebeu alguma coisa no ar. Olhou bem sério para ela, sentada no sofá meio encolhida, com as pernas e o olhar inquietos.
Quando se sentou no sofá à sua frente é que Lisa deu-se conta de que devia disfarçar um pouco o seu temor e tentar agir como sempre agiu diante de sua pessoa. 
Só que estava muito difícil! Praticamente impossível ocultar o transtorno que a proximidade daquele homem provocava!
Examinava-o ali sentado, com um jeans justo azul-marinho, a toalha de banho ainda nas mãos, os cabelos molhados em desalinho, respingando água pelos ombros e costas da camiseta branca, a expressão, apesar de preocupada, amigável… Quanto mais o examinava, mais pensava que não dava para fazer mal juízo dele. 
Mas também não dava para esquecer o que tinha dito!
— Não vai jantar? – conseguiu falar com uma certa dificuldade quando estava quase a ponto de pirar com aqueles olhos curiosos em cima.
Para sua surpresa, ele respondeu que não com um gesto de cabeça. Em seguida, fingiu atenção à TV, notando que estava sendo desagradável.
Ela não podia acreditar… Não podia acreditar que agora teria que ficar com aquele cara ali! Por mais que tentasse, tinha certeza que não se sentiria à vontade ao seu lado aquela noite. 
Talvez nunca mais. 
Para não dar muito na cara, decidiu permanecer durante alguns minutos. 
Foram os dez minutos mais difíceis de sua vida! 
A aflição remoía-lhe o estômago, o fígado, todos os seus órgãos vitais! Vez ou outra ele deixava a televisão para fitá-la e isso a fazia querer desaparecer do mapa, gritar por socorro ou qualquer coisa do gênero. Só não queria continuar naquele estado. 
Foi quando repensou na atitude absurda que tivera em abrigar um completo desconhecido em sua casa. Do quanto fora inconsequente! 
Aqueles dez minutos foram a sua máxima. Certa de que não suportaria mais aquela situação, resolveu ir para a cama mais cedo. Não dormiria àquela hora, obviamente, mas com a porta do quarto trancada se sentiria bem mais segura.
  Procurando manter o sorriso evidentemente forçado no rosto, colocou-se de pé e disse:
— Boa noite.
A cara que ele fez foi como se tivesse falado o maior absurdo do mundo. 
— Jáááá?! – não fez questão de esconder o tremendo espanto que a notícia lhe causou.
Meio sem jeito, disse com a voz mais aguda do que gostaria:
— Já.
Seus olhares fixaram-se por uns pequenos instantes.
— Se mudar de idéia e quiser jantar, tem comida no microondas, é só esquentar. – informou recobrando a voz.
Ele concordou com a cabeça, um pouco perdido. Caminhando devagar, como se estivesse pisando em ovos, ela dirigiu-se ao seu quarto.
Quando ia encostar na maçaneta da porta, foi obrigada a parar.
— O que é que te deu para dormir tão cedo? Lisa, você sabe que horas são?
— Sei. – respondeu sem olhar para trás.
— Então! O que é? Não está se sentindo bem?
— Estou sim, obrigada. Boa noite.
— Lisa!
Ela reprimiu um grito quando sentiu seu braço ser agarrado. Dando tudo de si para controlar-se, virou e conseguiu encará-lo. Não o encarou desafiadora, muito pelo contrário. Enquanto podia enxergar a agonia e tristeza do amigo, demonstrava o receio que a invadia interiormente.
— Você está com medo de mim. – declarou sem a menor sombra de dúvida.
— Lógico que não. – insistiu ao passo em que o tremor de seu braço a desmentia. – P-por… - gaguejou e engoliu com força a saliva para arrumar a voz. – Por que estaria?
Soltando seu braço e afastando-se, mostrou-se magoado, reafirmando:
— Está com medo de mim.
Voltou para o seu lugar, mas não pensou nem um centésimo em tornar a olhar para a TV. Seus olhos incrédulos e apertados de decepção, prenderam-se nela e não podiam livrar-se de modo algum. Ela também se sentia presa, sem poder deixar de encará-lo e mover-se de onde estava.
Após alguns momentos de reflexão, perguntou:
— Está agindo assim porque está zangada ou amedrontada?
Imediatamente, viu que ele mesmo obtinha a resposta:
— As duas coisas, certo? Só que a segunda hipótese prevalece muito mais do que a primeira.
Seu argumento não tinha como ser negado, estava tudo tão às claras! Ela não lhe tirava os olhos e nem arrancava os pés de onde estavam plantados porque estava paralisada. Paralisada de medo.
Balançando a cabeça e desviando o olhar por algum tempo, Kevin sentia-se em uma condição muito ruim. Arrependia-se demais por ter aberto a boca e soltado sua intimidade daquele jeito, arrependia-se também por ter tratado Lisa tão grosseiramente e agora… Agora não encontrava outra saída além de desculpar-se.
— Me desculpe por hoje à tarde. – desculpou-se com a voz vacilante.  – Eu… - passou a mão tensa pelos cabelos. – Eu, francamente, não queria ter sido grosseiro com você. – baixou os olhos para as mãos que acabava de entrelaçar perto dos joelhos. – Não tinha o direito de ter sido grosseiro com você. – enfatizou. – Fui injusto. Sei muito bem que sempre te deixo ler os meus poemas e ouvir os meus CDs, se não quisesse que lesse aquele, deveria ter guardado e não deixado jogado pela sala. Você está coberta de razão quando diz que não cuido de minhas coisas, porque não cuido mesmo.
Ele estava errado. Lisa sabia que estava errado, apenas não dizia por que não conseguia proferir qualquer palavra. Era forçada a admitir que desde que começaram a viver juntos aquela casa nunca mais foi a mesma bagunça de que quando vivia sozinha. Descobrira exatamente naquele dia, quando deparou-se com uma faxina nada drástica em comparação às anteriores.
— Fui um babaca. Mas o que me resta fazer agora, senão ficar lamentando e me desculpando?
— Não precisa se lamentar e nem se desculpar. – falou retomando um pouco de segurança e andando até a porta de entrada, que estava aberta, com os braços cruzados.
Lá, encostou-se na soleira e manteve o olhar para o lado de fora. Percebeu que sua voz saíra de uma forma seca que não gostou muito.
Kevin captou essa secura. Ela estava zangada, com medo, provavelmente não o queria mais ali e isso o fazia sentir-se mal. A sensação de desalento não podia ser evitada. Achava que deveria voltar de imediato para a Califórnia, pois não havia mais nenhum lugar onde fosse aceito naquela cidade. Aquela maldita discussão tinha estragado tudo. Discussão que ele provocou. Se agora as coisas estavam de pernas pro ar, era o único culpado. Ela não tinha culpa de nada.
— Lisa, por que me acolheu aqui? – precisava, mais do que nunca, saber.
Nem uma palavra, nem um olhar. Ela o estava ignorando.
Durante um bom tempo, o silêncio vagou com tudo pelo ambiente. Os dois permaneciam na mesma postura. Ela, indiferente, ele, ansioso por algum sinal de vida.
Cansado de tanta expectativa vã, acabou por tomar a iniciativa e abrir o seu coração:
— Sabe… - sua voz saía como se estivesse com vontade de chorar. – Ocorreu algo muito grave há um tempo atrás e sei que não imaginava. – mostrou um sorriso totalmente sem vida, esfregando as mãos suadas uma na outra. – Assim como não revelei da melhor maneira possível, reconheço.
Não houve nenhuma reação. Lisa continuava parada, com os olhos fixos do lado de fora em... Nada. Talvez o asfalto, talvez o poste apagado. 
— Lisa. – chamou com um certo apelo. – Reparou que moramos na mesma casa e não sabemos nada da vida um do outro? Não quero dizer que devamos adentrar a intimidade e fazer de nossas vidas um livro aberto, entretanto, viver da maneira que estamos vivendo também não é legal. Nós dividimos a casa, o banheiro, a mesa e somos como estranhos. Não sei qual é a sua opinião, mas… - parou para ver se alguma opinião seria dada.
Nenhuma opinião foi dada. Isso foi motivo para ele enlouquecer, escancarar seu interior:
— Eu sofri um acidente de carro há um tempo atrás. - revelou quase gritando e prestes a cair em prantos - 
Neste momento, algo dentro de Lisa despertou e trouxe o seu olhar de volta para dentro, esquecendo-se completamente dos temores e até mesmo do que havia sido declarado à tarde. 
Tudo o que podia ver agora era uma pessoa desesperada, fazendo forças para manter as mãos, que não paravam de tremer de um modo anormal, unidas, olhando para cima, como que implorando um gesto ou um consolo de Deus. As lágrimas rolavam incessantemente. Teve o desejo de chorar junto. Faltava muito pouco para acontecer.
— Estava voltando de um clube, era mais ou menos umas quatro horas da madrugada, a noite estava chuvosa. Chovia tanto que mal dava para enxergar as pessoas na rua, estávamos a oitenta por hora, o asfalto escorregadio, aí então… Aí então aquele caminhão veio em direção da gente e… Oh! Deus! Chovia demais! – gritou. – Lembro de ter sido jogado, de ter tentado pegar na mão dela antes disso… - tapou o rosto em desespero, liberando o choro doloroso e ao mesmo tempo silencioso, por completo.
Comovida, Lisa aproximou-se e pôs-se de cócoras diante dele sem que percebesse. Num movimento que pareceu-lhe de início involuntário, viu-se levando a mão à sua cabeça e afagando os cabelos molhados. Surpreso, Kevin descobriu o rosto e firmou os olhos vermelhos e transbordados de lágrimas nela.
— Eu a matei. – confessou pela segunda vez, desta vez em voz baixa.
— Não. – discordou. – Você não teve culpa, você não a matou.
— Eu a matei, sim. – persistiu petrificado como na ocasião em que revelou.
— Você mesmo falou que tentou pegar em sua mão…
—… eu é que estava dirigindo o carro! – vociferou atropelando-a e correndo para a porta. Lisa arregalou os olhos. Não estava esperando por uma atitude daquelas. 
— Eu é que estava dirigindo o maldito carro… — voltou a chorar, só que mais ponderado. – Até hoje não acredito que isso aconteceu. – meneava a cabeça sem parar, carregado de culpa, inconformado.
— Kevin, foi um acidente. – tentava explicar, levantando-se do chão.
— Um acidente? – retorceu um sorriso com sarcasmo, fitando-a com os olhos apertados. – Não foi o que o pai dela veio me dizer quando acordei do coma.